sábado, 21 de maio de 2011

De nenhum fruto queiras só metade..


Miguel Torga

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças...

terça-feira, 8 de março de 2011

Queria Um Abraço Hoje


* Vinicius de Moraes

De repente deu vontade de um abraço.
Uma vontade de entrelaço, de proximidade..
de amizade.sei lá..
Talvez um aconchego que enfatize a vida e
amenize as dores...
Que fale sobre os amores,
que seja teimoso e ao mesmo tempo forte.
Deu vontade de poder rever saudade de um abraço.
Um abraço que eternize o tempo e preencha todo espaço
mas que faça lembrar do carinho, que surge devagarzinho
da magia da união dos corpos, das auras..sei lá..
Lembrar do calor das mãos
acariciando as costas a dizer.. "estou aqui."
Lembrar do trançar dos braços envolventes
e seguros afirmando "estou com você"..
Lembrar da transfusão de forças
com a suavidade do momento ..sei lá..
abraço...abraço...abraço...
abraço...abraço..abraço...
abraço...abraço...abraço...
O que importa é a magia deste abraço!
A fusão de energia que harmoniza,
integra tudo, e que se traduz
no cosmo, no tempo e no espaço.
Só sei que agora deu vontade desse abraço!!
Que afaste toda e qualquer angústia.
Que desperte a lágrima da alegria, e acalme o coração..
Que traduza a amizade,o amor e a emoção.
E para um abraço assim só pude pensar em você....
nessa sua energia, nessa sua sensibilidade
que sabe entender o por quê...
dessa vontade desse abraço...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Carta da Terra

*Leonardo Boff

PREÂMBULO

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro reserva, ao mesmo tempo, grande perigo e grande esperança. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade de vida e com as futuras gerações.

TERRA, NOSSO LAR

A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, é viva como uma comunidade de vida incomparável. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade de vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todos os povos. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A SITUAÇÃO GLOBAL


Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, esgotamento dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e a diferença entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causas de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

DESAFIOS FUTUROS

A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais em nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem supridas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais e não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos no meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções inclusivas.

RESPONSABILIDADE UNIVERSAL

Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com a comunidade terrestre como um todo, bem como com nossas comunidades locais. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual as dimensões local e global estão ligadas. Cada um compartilha responsabilidade pelo presente e pelo futuro bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida e com humildade em relação ao lugar que o ser humano ocupa na natureza.

Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, interdependentes, visando a um modo de vida sustentável como padrão comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos e instituições transnacionais será dirigida e avaliada.

PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DE VIDA

1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.

Reconhecer que todos os seres são interdependentes e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.
2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.

Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais, vem o dever de prevenir os danos ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
Assumir que, com o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder, vem a
maior responsabilidade de promover o bem comum.
3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.

Assegurar que as comunidades em todos os níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada pessoa a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a obtenção de uma condição de vida significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.
4. Assegurar a generosidade e a beleza da Terra para as atuais e às futuras gerações.

Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra a longo prazo.
II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA

5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial atenção à diversidade biológica e aos processos naturais que sustentam a vida.

Adotar, em todos os níveis, planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável que façam com que a conservação e a reabilitação ambiental sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
stabelecer e proteger reservas naturais e da biosfera viáveis, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçados.
Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que
causem dano às espécies nativas e ao meio ambiente e impedir a introdução desses
organismos prejudiciais.
Administrar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de forma que não excedam às taxas de regeneração e que protejam a saúde dos ecossistemas.
Administrar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que minimizem o esgotamento e não causem dano ambiental grave.
6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.

Agir para evitar a possibilidade de danos ambientais sérios ou irreversíveis, mesmo quando o conhecimento científico for incompleto ou não-conclusivo.
Impor o ônus da prova naqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que as partes interessadas sejam responsabilizadas pelo dano ambiental.
Assegurar que as tomadas de decisão considerem as conseqüências cumulativas, a longo prazo, indiretas, de longo alcance e globais das atividades humanas.
Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
Evitar atividades militares que causem dano ao meio ambiente.
7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.

Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
Atuar com moderação e eficiência no uso de energia e contar cada vez mais com fontes energéticas renováveis, como a energia solar e do vento.
Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias
ambientais seguras.
Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam às mais altas normas sociais e ambientais.
Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.
8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover o intercâmbio aberto e aplicação ampla do conhecimento adquirido.

Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuem para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, permaneçam disponíveis ao domínio público.
III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA


9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.

Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, alocando os recursos nacionais e internacionais demandados.
Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma condição de vida sustentável e proporcionar seguro social e segurança coletiva aos que não são capazes de se manter por conta própria.
Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem e habilitá-los a desenvolverem suas capacidades e alcançarem suas aspirações.
10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.

Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e liberá-las de dívidas internacionais onerosas.
Assegurar que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais
atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas
conseqüências de suas atividades.
11. Afirmar a igualdade e a eqüidade dos gêneros como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.

Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
Fortalecer as famílias e garantir a segurança e o carinho de todos os membros da
família.
12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, com especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.

Eliminar a discriminação em todas as suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas com condições de vida sustentáveis.
Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seu
papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.
IV. DEMOCRACIA, NÃO-VIOLÊNCIA E PAZ

13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e prover transparência e responsabilização no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e acesso à justiça.


Defender o direito de todas as pessoas receberem informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que possam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações interessados na tomada de decisões.
Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de reunião pacífica, de associação e de oposição.
Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos judiciais administrativos e independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.
14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.

Prover a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no aumento da conscientização sobre os desafios ecológicos e sociais.
Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma condição de vida sustentável.
15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.

Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimento.
Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.
16. Promover uma cultura de tolerância, não-violência e paz.

Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para administrar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até o nível de uma postura defensiva não-provocativa e converter os recursos militares para propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em
massa.
Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico ajude a proteção ambiental e a paz.
Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.
O CAMINHO ADIANTE

Como nunca antes na História, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa destes princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.

Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável nos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global que gerou a Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca conjunta em andamento por verdade e sabedoria.

A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Entretanto, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade tem um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.

Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacionalmente legalizado e contratual sobre o ambiente e o desenvolvimento.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação dos esforços pela justiça e pela paz e a alegre celebração da vida.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

ECOLOGIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE

Maurício Andrés Ribeiro (*)
1 O termo ecologização significa aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas às situações da vida e da sociedade. 2 Era ecozóica representa a era em que os humanos se tornariam uma presença mutuamente benéfica colaborando ativamente para sustentar a Terra que os sustenta. Ela sucede à era cenozóica que se encontra em estágio terminal e que foi iniciada há 67 milhões de anos, na grande ruptura que levou à extinção dos dinossauros. 3 The Great Work, 1999. 4 Sri Aurobindo, op.cit., p.331 e p.196
"As Universidades devem decidir se continuarão a treinar pessoas para a sobrevivência temporária na era cenozóica declinante ou se vão começar a educar os estudantes para a emergente era ecozóica 2 ." Thomas Berry A educação é um instrumento poderoso para o desenvolvimento da consciência humana e a instituição universitária apresenta potencial e limitações para auxiliar na grande obra coletiva de construir a era ecozóica. Reflexões relevantes tem sido produzidas sobre esse tema.
Thomas Berry3realça o papel da universidade na preparação para a emergente era ecozóica, pois é uma instituição que produz, mantém e dissemina conhecimentos, além de influenciar a consciência e as atitudes das pessoas. Entretanto, numa perspectiva crítica, constata-se que hoje a universidade sustenta intelectualmente uma visão de mundo utilitarista, que tem por objetivo primordial ampliar e aprofundar o domínio do ser humano sobre a natureza e a vida em sociedade. Essa visão, predominantemente antropocêntrica e que responde a demandas das corporações econômico-financeiras e do complexo industrial militar, tem conseqüências devastadoras. A universidade voltada para facilitar a era ecozóica deveria deslocar esse eixo, colocando em primeiro lugar a importância do bem estar e da saúde do ambiente, pois dela depende a sobrevivência das espécies, dentre elas, a humana.
Uma visão culturalmente colonizada reproduz, ainda hoje, em nossas universidades, padrões de educação questionados pelo pensamento mais avançado. A situação que ainda predomina em nossas universidades é semelhante à apontada por Sri Aurobindo 473 na década de 20, para a Índia, durante o período de colonização inglesa: "O sistema que prevalece em nossas universidades ignora a psicologia do homem, carrega a mente trabalhosamente com numerosos pequenos pacotes de informação cuidadosamente amarrados e, pelos métodos usados nesse processo de carregamento, danifica ou atrofia as faculdades e instrumentos pelos quais o homem assimila, cria e cresce no seu intelecto, humanidade e energia". Ainda referindo-se ao contexto da Índia colonizada e tentada a abandonar suas tradições milenares em favor de maneiras ocidentalizadas, Aurobindo denunciava:
"A civilização ocidental científica, racionalista, industrial, pseudo-democrática, está em processo de dissolução e seria, para nós, um absurdo lunático, neste momento, construir cegamente sobre essa base que está afundando."
Se nas universidades atuais sobrevalorizam-se as ciências, destacando-se aquelas que levam a uma ultra-especialização, o novo paradigma, holístico e ecológico, questiona de modo crescente este reducionismo e a fragmentação científica, incidindo particularmente sobre os seus reflexos na educação universitária. Fritjof Capra5nota, a respeito da especialização e do reducionismo na educação universitária, que "um sinal impressionante do nosso tempo é o fato de as pessoas que se presume serem especialistas em vários campos já não estarem capacitadas para lidar com os problemas urgentes que surgem em suas respectivas áreas de especialização." Abordando especificamente a área de saúde, ele completa: "Preparar os estudantes de medicina e outros profissionais dessa área para a nova abordagem holística exigirá uma considerável ampliação de sua base científica e uma atenção muito maior para com as ciências do comportamento e a ecologia humana." Em resposta a tais lacunas, criam-se áreas interdisciplinares de ciências do ambiente em cursos de graduação e de pós-graduação, que pretendem integrar várias áreas, com ênfase nas ciências biológicas e exatas. Ainda que importantes, tais esforços não cobrem, entretanto, a ampla gama e diversidade de aportes necessários à formação de uma perspectiva ecologista integradora. Ainda que padeça de tais limitações, a universidade tem um grande potencial no sentido de contribuir para a expansão da consciência ecológica e para dar a ênfase devida às chamadas ciências ecológicas. E também para a ecologização de todos e cada um dos campos do conhecimento.

(*) Autor de Ecologizar www.ecologizar.com.br mandrib@uol.com.br

A logística reversa como instrumento da política de resíduos sólidos

Autor: Cláudio de Castro (Vieira Castro Advogados) - 21/08/2010

Fonte: http://www.vieiracastro.com.br/artigos2.asp?id=5

Um dos assuntos que tem causado maior repercussão após a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei Federal 12.305/2010) é a chamada logística reversa. Na definição da lei, a logística reversa é o “instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada”.
A leitura apressada do conceito da lei faz crer que a logística reversa cuida somente da devolução dos resíduos aos fabricantes, após terem sido descartados pelos consumidores. Em outros termos, é o mesmo que acreditar ser apenas do fabricante a responsabilidade pela criação de mecanismos que permitam recolher o lixo de volta.
A logística reversa é muito mais abrangente. E não se resume ao papel do consumidor, que deve ser chamado à responsabilidade e incentivado a encontrar os canais de devolução aos fabricantes. Também não é suficiente lançar o foco de nossa atenção apenas para alguns tipos de produtos cuja destinação final inadequada pode causar danos ao meio ambiente, como as pilhas, baterias, pneus, óleos e lâmpadas fluorescentes.
O computador é um dos produtos que temos incorporado ao nosso cotidiano. Foi utilizado para escrever este texto e, provavelmente, está sendo utilizado para lê-lo. Ele é produzido com o uso de sílica (25%), plástico (23%), ferro (20%), alumínio (14%), cobre (7%) e chumbo (6%). Basicamente, o PC é constituído de metais e plásticos.
Especialistas do setor afirmam que o computador tem um ciclo de vida de aproximadamente três anos. Depois desse prazo, dizem, os custos de manutenção superam os custos de aquisição de uma máquina nova. Se o dono do PC for viciado em novidade, então o ciclo de vida pode terminar em um ano ou menos, abrindo espaço para a aquisição de novo modelo “top de linha”.
Na hora da troca, o usuário sabe exatamente que o destino da máquina nova será a sua mesa de trabalho. O problema é saber o que fazer com a máquina velha.
Países tidos como desenvolvidos têm cuidado de enviar computadores obsoletos para países pobres, especialmente no continente africano, crendo que dessa forma estão resolvendo o problema.
No nível pessoal, afora a opção nada ecológica de jogar o PC na lixeira e esperar que seja recolhido pelo serviço de coleta, são apontadas outras três opções: devolução ao fabricante, venda para empresas de reciclagem ou doação para entidades carentes.
Se o computador for jogado no lixo para ser levado a aterros sanitários, lançará no ambiente metais pesados como o mercúrio e o chumbo, entre outros produtos, que têm a capacidade de causar danos à saúde.
Se a questão for apenas exigir a devolução ao fabricante basta exigir que estes criem postos de coleta e que, após recolhidas, as máquinas sejam destruídas ou descartadas. Por sua vez a reciclagem nada mais é que um processo de sucateamento, que transforma um produto com alto valor agregado em um produto de menor valor agregado. A doação para entidades carentes se assemelha à atitude daqueles países desenvolvidos que usam esse expediente para se vêem livres dos equipamentos obsoletos. De qualquer forma, estamos apenas empurrando o problema para depois.
Não se recomenda também que o velho PC seja incinerado. A ciência está concluindo que não existem processos de incineração que operem com 100 por cento de eficiência. Nesta hipótese o chumbo e o mercúrio acabam sendo liberados no ambiente em formas até mais concentradas e perigosas que o lixo original.
A cultura do consumo em que estamos inseridos considera que os produtos nascem nas fábricas e morrem nos aterros. É o que se denomina ciclo “berço-cemitério”. Ou seja, além de terem ciclos de vida normalmente muito mais curtos do que seria tecnicamente possível, ao final desse ciclo, são destruídos em processos poluentes. Ou então são sucateados pela reciclagem ou simplesmente são doados. Como visto, essas opções nada mais fazem do que causar problemas mais graves, postergando a solução para o futuro ou mudando os problemas de lugar.
A saída é exigir que os fabricantes coloquem à venda produtos cujo ciclo de vida seja do tipo “berço-berço”. Isto significa a devolução do produto à origem ao final de seu tempo de uso, mas não apenas para que o fabricante o incinere ou recicle. Os componentes usados na fabricação devem ser devolvidos à fonte de onde foram extraídos ou serem aplicados novamente em produto similar.
É certo que o computador verde ainda não está disponível no mercado. Até porque os metais são recursos naturais não renováveis e os plásticos, derivados dos combustíveis fósseis, também não são renováveis. No atual estado da ciência, é quase impossível aplicar em sua plenitude o ciclo “berço-berço” a vários dos produtos que usamos cotidianamente. Nada, porém, que a capacidade humana, impulsionada pelos interesses adequados, não possa superar.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

“...A Verdade absoluta sequer interessa ao cientista, ele está perfeitamente contente com o conjunto de hipóteses de trabalho que sejam boas apenas em certos momentos e para certos objetivos”
“Para o leigo, a coisa mais importante a saber com respeito à ciência é a seguinte: não é uma busca da verdade mas uma busca do erro. Um cientista vive num mundo onde a verdade é inatingível, mas onde é sempre possível encontrar erros no que foi penosamente estabelecido ou no óbvio. Se você quiser saber se alguma teoria é realmente científica experimente o seguinte teste: se o texto está truncado com ‘talvez’ e ‘possivelmente’, qualificações, justificativas, então provavelmente é científico; quando se afirma ser a verdade final, não é científico”
Rudolf Flesh, The Art of Clear Thinking, 1951.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Da Utilidade dos Animais

*Carlos Drummond de Andrade

Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.

- Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?

- Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pêlo se fazem perucas bacanas. E a carne, dizem que é gostosa.

- Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?

- Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.

- Ele faz pincel, professora?

- Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.

Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru:

- Bolsas, mala, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando da carne. Canguru é utilíssimo.

- Vivo, fessora?

- A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pêlo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores, etc.

- Depois a gente come a vicunha, né fessora?

- Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…

- A gente torna a corta? Ela não tem sossego, tadinha.

- Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?

- A carne também é listrada?- pergunta que desencadeia riso geral.

- Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pingüim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento – não sabem o que é? O cocô do pingüim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito da gordura do pingüim…

- A senhora disse que a gente deve respeitar.

- Claro. Mas o óleo é bom.

- Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.

- Pois lucra. O pêlo dá escovas é de ótima qualidade.

- E o castor?

- Pois quando voltar a moda do chapéu para os homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar de um bom exemplo.

- Eu, hem?

- Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living da sua casa.

Do couro da girafa Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pêlos da cauda para Tereza fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não cauculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa. O biguá é engraçado.

- Engraçado, como?

- Apanha peixe pra gente.

- Apanha e entrega, professora?

- Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.

- Bobo que ele é.

- Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?

- Entendi, a gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pêlo, o couro e os ossos.